10 de fev de 2012

No fundo, encontramos a essência: padres do deserto e Zen

Certo dia Epifânio, o bispo do Chipre, mandou um mensageiro dizer ao abade Hilarião: “Vem, para que nos vejamos antes de morrer”. Com efeito se encontraram e, enquanto comiam, levaram-lhes uma galinha. O bispo a ofereceu ao abade Hilarião, mas disse o ancião: “Pai, excusa-me, pois desde que vesti este hábito, não como carne”. Respondeu-lhe Epifânio: “E eu, desde que vesti este hábito, jamais permiti alguém se deitar tendo algo contra mim, e jamais dormi com ressentimento contra alguém”. Disse-lhe então Hilarião: “Perdoa-me, tua prática é melhor que a minha”. (Epifânio, 4)

Contava o abade Cassiano que o abade João, higúmeno do Grande Monastério, fizera uma visita ao abade Paésius, que habitara quarenta anos o mais afastado do deserto. Ele amava profundamente Paésius e o interrogou com a liberdade que essa afeição lhe dava: “Vives na anacorese há muito tempo, e a custo um homem consegue te turbar; dize-me, a que resultado chegaste?”
– “Desde que me fiz solitário, respondeu Paésius, nunca o sol me viu comer”
– “E a mim, disse o abade João, nunca ele me viu colérico”. (Cassiano, 4 Inst; Coen. 5, 27)

Na Cítia o abade Macário o Ancião dizia aos irmãos após reuni-los em assembléia: “Fugi, irmãos!”. Um deles lhe perguntou: “Pai, para onde fugir mais senão neste deserto?” O abade pôs o dedo sobre a boca dizendo: “Eis donde eu digo para fugir”. E ele mesmo entrou na cela, fechou a porta e ficou só. (Macário, 16)

Disse o abade Macário: “Se tu te irritas ao repreender alguém, satisfazes tua própria paixão. Não te deves perder para salvar o próximo”. (Macário, 17)

Certo dia o abade Sisóis dizia com parresia: “Crede-me: há trinta anos que já não rezo a Deus por meus pecados, mas Lhe digo em oração: ‘Senhor Jesus Cristo, guardai-me de minha língua!’. Mas até agora eu caio por causa dela e cometo o pecado!” (Sisóis, 5)

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